Entregar as chaves
Quando mudar de casa significa, também, mudar de vida.
Há seis meses, entreguei as chaves do apartamento onde morei por seis anos.
Só ontem, enquanto agendava uns pagamentos no sofá de casa, me dei conta de como o tempo voou desde então, sem que eu sequer percebesse.
Lembro de, na época, ter pensado em escrever sobre a mudança. Mas me faltaram palavras. Travei.
Deixei a ideia de lado e resolvi viver antes de escrever. Ainda bem.
Há seis meses entreguei, sim, as chaves do apartamento onde vivia.
Mas, junto com elas, entreguei também chaves que eu nem sabia que existiam.
Entreguei as chaves do controle absoluto sobre o meu tempo; da liberdade de tomar decisões sem considerar opiniões alheias; do ir e vir sem dar satisfações.
Acontece que, ao contrário do que pode parecer, nunca me senti tão livre.
Porque não existe liberdade maior do que doar-se, de peito aberto, a quem caminha ao seu lado.
Livre de verdade é quem pode sair a qualquer momento, mas escolhe permanecer e construir junto.
Há seis meses entreguei as chaves de uma vida autocentrada (ou egoísta, como preferir).
E como todo ciclo se encerra para dar início a outros, ao entregar algumas chaves que carregava comigo peguei, também, chaves novas.
Chaves para uma vida de sonhos e planos compartilhados; para novos papéis e responsabilidades; para um amor tão puro que nunca imaginei sentir.
Nem sempre é fácil. Às vezes, é verdade, me enrolo com o novo molho que carrego nas mãos.
Confundo as chaves e me cobro por não conseguir abrir algumas portas logo na primeira tentativa.
Nessas horas, respiro e olho para cada nova chave que carrego comigo. Algumas que sempre sonhei ter, outras que nem sabia que existiam (mas que sorte a minha que existem!).
Ainda estou aprendendo a lidar com as novas chaves. Mas que bom que não me faltou coragem para, há seis meses, entregar as antigas.


Seu texto me tocou de uma forma tão profunda... estou passando agora pela mesma transição... em condições muito semelhantes (também sou madrasta). Não tem sido fácil mas ler o seu texto me deu um alento e um quentinho no coração... obrigada por essa preciosidade compartilhada!
Eu também um dia resolvi "entregar as chaves". Foi, na época, uma decisão difícil; mas hoje posso afirmar que foi a melhor decisão da minha vida. Não fosse ela, não poderia hoje estar desfrutando do seu carinho. Papai.