Dor do Crescimento
E a pergunta de um milhão de dólares: será que em algum momento para de doer?
Minha transição da infância para a adolescência não foi das mais gentis - se é que essa fase da vida consegue ser gentil com alguém.
Basta uma breve viagem mental no tempo para que algumas lembranças cheguem. Passados tantos anos, elas já não doem mais. Mas deixaram suas marcas, como deixam na vida de qualquer pessoa.
A primeira rejeição amorosa, a sensação de inadequação ao grupo de amigos, a dicotomia entre a busca pela própria identidade e o desejo de pertencimento…
Dores emocionais que demandam, nessa idade, muito além do que um cérebro ainda em desenvolvimento é capaz de suportar.
Na minha pré-adolescência, no entanto, não era “apenas” com elas que tinha que lidar.
Lembro-me de sentir, com certa frequência, dores intensas na panturrilha. Um misto de câimbra e ardência muscular que, por vezes, me levava às lágrimas.
Nessas horas, recorria ao meu pai. Educador físico por formação, ele tratava de massagear a região até que o desconforto cessasse.
Apreensiva, minha mãe observava e comentava: “é a dor do crescimento”.
Quando as crises enfim passavam, era tomada pelo desejo intenso de crescer logo. Pensava - inocente - que as dores desapareceriam quando chegasse à vida adulta.
As panturrilhas, de fato, pararam de doer, e hoje reclamam apenas quando me empolgo na academia.
Mas bastaram alguns anos pra me dar conta de que certas dores - as que alfinetam a alma - nunca param de doer.
Mudam as causas, é fato, e principalmente a forma como lidamos com elas.
As rejeições são incorporadas ao cardápio da vida adulta com mais naturalidade e, no meu caso, bastou passar dos 30 para que eu deixasse de me esforçar para pertencer a qualquer grupo.
Estou confortável na minha pele. Conheço meus valores inegociáveis e aprendi a confiar na minha intuição quando ela me avisa para ficar longe de alguém.
Ainda assim, vez ou outra, alguma coisa dói aqui dentro.
Novos dilemas, novos desconfortos, novos desafios para um cérebro que já deveria estar maduro a essa altura da vida.
“É a dor do crescimento”. E talvez a gente nunca pare de crescer.

